Representatividade para crianças negras!

domingo, 20 de agosto de 2017




Hoje seria mais um dia normal até que eu entrei no instagram e vi imagens da Monalysa Alcântara, a nova Miss Brasil negra. Fiquei olhando pra ela e lembrando da minha infância; das muitas vezes em que folhei revistas procurando mulheres que se parecessem comigo e tivessem traços semelhante aos meus, o que raramente encontrei. Lembrei do meu cabelo crespo que por muitos anos odiei até que aprendesse de fato a amá-lo e também das muitas crises que tive em frente ao espelho. Depois pensei nas futuras gerações de crianças que terão a oportunidade de ter essa jovem como referência positiva em que se espelhar e aquilo me deixou imensamente feliz...

Eu particularmente não gosto de concursos de belezas, primeiro porque considero a aparência algo muito relativo para se discutir. Segundo, porque não gosto de nada que dissemine padrões. Sem contar que tais eventos influenciam negativamente na formação das crianças, levando-as a crer que "ser belo" é algo que importa muito mais do que qualquer outra coisa.  Mas tudo bem, meu foco hoje não é o evento em si, mas o fato de termos mais uma mulher negra com a coroa na cabeça.
Por muitos anos, em todas as edições do Miss Brasil, foi reforçado um modelo de beleza no qual a maioria não se encaixava; a participação de mulheres negras era reduzida e nenhuma destas saía com a coroa na cabeça. É totalmente contraditório que em um país de maioria negra se tenha apenas três mulheres eleitas como Miss Brasil em sessenta e três edições, mas a vitória dessas duas últimas candidatas depois de um período de 30 anos demonstra que a realidade está mudando. E isso não pode parar por aí.
Mas vocês entendem a dimensão desse acontecimento? Veuma mulher negra e cacheada como vencedora do Miss Brasil  pela segunda vez consecutiva. São capazes de compreender o quanto tal fato vai influenciar na vida de muita criança negra por aí, e até mesmo, futuramente, em relação àquelas que ainda vão nascer?
Pra mim é um misto de satisfação e conforto; não sei explicar o que se passa em minha cabeça e em meu coração nesse momento. Parece que aquele sonho de criança está se tornando realidade, afinal  eu cresci vendo a minha beleza ser desconsiderada através de um padrão estético discriminatório no qual a figura branca predominava. Até ano passado, com a vitória da Miss Raissa Santana, eu nunca havia visto um concurso de beleza no qual a vencedora me representasse, era como se as minhas características não fossem importantes em termos estéticos. Dessa forma, ver a beleza negra ser reconhecida e valorizada gera esperança de que a situação ainda possa ser mudada.
Quando você é negro, desde cedo aprende a lidar com  a baixa autoestima. São bonecas que não te representam, contos de fadas nos quais a maioria dos personagens são brancos, uma mídia na qual a presença do negro é reduzida e comerciais que se destinam a veicular a ideia que o cabelo crespo ou cacheado deve ser alterado. Felizmente, hoje essa realidade já se alterou bastante, nota-se que o negro vem alcançando cada vez mais espaço e há uma pressão maior no sentido se se combater o preconceito, mas ainda é preciso muita luta para que todos sejam tratados como iguais.
Por isso é preciso falar da autoestima dos negros, do empoderamento e da luta pela representatividade, porque ela importa sim. As crianças precisam se reconhecer em todos os espaços e compreender que não existe um perfil ideal de beleza; que todos são lindos à sua maneira e que as diferenças fazem parte da sociedade. A vitória da Monalysa representa mais um degrau alcançado na luta contra a desigualdade racial, luta esta que precisa ocorrer todos os dias e que não pode parar. Por isso desejo todo o sucesso do mundo a ela que também representa toda uma geração de meninas negras que teve a beleza negada. 
E você, o que achou da vitória de mais uma miss negra? Comenta aqui embaixo.

*Imagem: reprodução/facebook

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